17 – por Lenise Pinheiro para “100 NUS Celebram Phedra”

O ensaio de número 17 do Projeto “100 NUDE Shoots (of Hugo)” foi escolhido para integrar a 17ª edição do Festival Satyrianas como uma performance coletiva em homenagem à Phedra de Cordoba, atriz transexual cubana, diva da Praça Roosevelt — principal núcleo teatral independente de São Paulo —, falecida em Abril de 2016 . Chamada de “100 NUS Celebram Phedra”, a performance contou com dezenas de participantes inscritos pelas redes sociais, e foi fotografada por Lenise Pinheiro, grande nome da fotografia teatral brasileira, que aceitou o convite para emprestar sua visão ao registro dessa homenagem.

100 NUS Celebram Phedra by Lenise Pinheiro

Rodolfo García Vázquez, fundador do grupo Os Satyros — casa de Phedra durante seus últimos 15 anos de vida — compartilhou conosco sua visão sobre a relação da diva transexual com seu próprio corpo:

“O que eu achava incrível na Phedra é que ela não tinha a menor vergonha de seu corpo, que, velho e alterado, carregava com orgulho a sua história. Ela não o usava para negar sua própria história, como tantos de nós fazemos. Phedra começa sua transformação em 1969, quando Felipe, um bailarino de teatro de revista. Ela faz implante de silicone em 1972, quando a tecnologia dos implantes era precária, e carregava já idosa seu silicone duro, empedrado, sem desejo de substituí-lo. Ela levava o resultado histórico de sua transformação com orgulho. Phedra não fez a transgenitalização, porque na época o procedimento era ilegal e ainda mais difícil que hoje. Ela foi assumindo seu pênis, sua “carne esponjosa”, como o chamava, como uma parte de quem era, e lidava bem com isso. Há dois anos ela foi filmada completamente nua para o espetáculo “Não Morrerás”, dos Satyros. Seu corpo velho e modificado era projetado no telão com todas as suas rugas e peculiaridades, e ela não tinha vaidade ou vergonha alguma dele.” — Rodolfo García Vázquez

 

100 NUS Celebram Phedra by Lenise Pinheiro

100 NUS Celebram Phedra by Lenise Pinheiro

A performance, um improviso coletivo estimulado pela luz, por imagens e por músicas de Phedra projetadas sobre as pessoas e as paredes do Estação Satyros, assim como pelas palavras e testemunhos de Rodolfo, Lenise Pinheiro e da própria atriz homenageada, foi ainda transmitida ao vivo pela internet para mais de 500 pessoas. Um desfile de Phedras nuas, seus corpos livres, iluminadas com sua própria luz.

Alessandro Sbampato, um dos performers que se inscreveu para participar ao ver a convocação nas redes sociais, nos contou o significado que a participação na performance/ensaio teve para ele:

“Foi uma experiência libertadora pra mim. Não sou ator, sou arquiteto e professor, e por força do mestrado, performer, pois meu tema trata da relação entre corpo e paisagem através da arte. A fala inicial do Rodolfo García Vásquez sobre o corpo de Phedra como uma coleção de memórias foi muito importante pra eu me soltar. Tenho 48 anos, meu corpo já foi de remador, de ciclista, mas cheguei aos 170 kg. Fiz a redução do estômago e estou reconstruindo meu corpo aos poucos. Não que tenha feito cirurgia por pressão social, ao contrário: quando estava gordo ocupava uma situação de conforto dentro do universo ‘bear’. Foi uma questão de sobrevivência. Ao emagrecer, meu corpo se transformou, e, somados aos anos que passam, tudo isso aparece nas marcas do corpo, suas memórias, e traz desconforto estético. Antes de começarmos a performance, comentei com a Lenise que, assistindo recentemente Bacantes, fiquei impressionado com a dignidade da nudez anciã de Vera Barreto Leite, resplandecente em cena. Se ela, que foi uma das mulheres mais belas do mundo, não se envergonha do corpo que tem hoje, porque eu deveria? Estou me reconstruindo por necessidade de encontrar o corpo que dê suporte a tudo que eu quero fazer. Como no monólogo de Agrado em “Todo sobre mi madre”, do Almodovar, a gente é tanto mais autêntico quanto mais próximo fica do que se enxerga como pessoa. Obrigado a todos; ao Clayton Policarpo que me convidou a participar, ao Hugo Godinho pelo projeto tão bonito, e à Lenise Pinheiro pelas fotos tão sensíveis. O corpo é nosso barco e nossa casa. O corpo será sempre nossa última barricada.”

100 NUS Celebram Phedra by Lenise Pinheiro 100 NUS Celebram Phedra by Lenise Pinheiro

À Lenise Pinheiro, aos Satyros e aos luminosos performers que se desnudaram para essa homenagem, a minha mais sincera e — pela Phedra — eterna gratidão:

[EXTRA]: o Renato Peixoto, fotógrafo integrante do coletivo FotoMix, também registrou a performance e agora temos mais essa memória preciosa aqui: