14 – por Hélio Beltrânio e Lucas Corazza

Estamos há 0 dias sem açúcar…

Eu tenho uma relação muito complicada com o açúcar, há anos. Os últimos meses têm sido particularmente difíceis. Só quem é próximo sabe, mas o fato é que me tornei viciado mesmo, com direito a várias das características e sintomas de dependência química e psicológica. Dia após dia eu me entupo de doces, como se não houvesse amanhã.

Saber que eu terei dor de barriga todo dia, que o colesterol está alto, que eu tou prejudicando minha forma física e meu trabalho como modelo, que eu tou rasgando dinheiro, que tenho dores de cabeça dia sim dia não, que não durmo direito porque me dá tremedeira nas pernas no meio da noite — nenhum argumento racional tem me impedido de passar numa lojinha qualquer quase dia após dia, encher a bolsa de tranqueira, comer tudo antes de chegar na próxima esquina e, atravessando o sinal, fazer tudo de novo na próxima lojinha. Às vezes mais de uma vez por dia. Enquanto isso toda aquela comida saudável vai envelhecendo na geladeira por falta de espaço no estômago.

Produzi esse ensaio com a ajuda dos amigos Hélio Beltrânio e Lucas Corazza em uma tentativa de enfrentar o vício em uma nova frente, ao tornar público o meu problema e assim, talvez, dificultar a negação da minha própria realidade. Meus queridos… obrigado.

Fui convidado pelo Hugo a produzir e dirigir um ensaio pro seu projeto 100 NUDE Shoots através das lentes do Hélio Beltrânio. Hugo, um corpo esculpido, uma referência estética, um lindo objeto de desejo — é chocantemente compulsivo por açúcar. Topei o desafio e enveredei por um caminho de pesquisa da filosofia do gosto brasileiro. Por que nosso gosto excessivamente doce? Por que valorizamos mais o açúcar do que o sabor? Por que fazemos enfeites com açúcar que não podemos nem comer? Por que, porque, por quês! Muitas questões que trouxeram a tona um assunto mais pertinente: o que é o consumo consciente de açúcar?

Se a aparência explicasse a essência, o sabor seria desnecessário.

Procuro fazer doces melhores para inspirar as pessoas a fazerem doces melhores, recusando as soluções fáceis – e viciantes – da indústria alimentícia. Desconstruindo a beleza do açúcar pelo açúcar: o ensaio exporia então a beleza e a fragilidade de Hugo, dependente do açúcar – compulsivo por ele. A beleza que esconde as calorias vazias que a grande indústria coloca em seus doces. Como se derretendo um céu de algodões-doces e desmistificando fragilidades através de imagens o ensaio revelasse um pouco de nossas visões do mundo, medos e formas que encontramos de superá-los: aceitando-os.

O que não eu contava é que o ensaio também revelaria minha própria fragilidade. Uma frase de Alain de Botton recentemente me marcou. Dizia o seguinte: “As pessoas só começam a ficar interessantes quando começam a sacudir as grades de suas jaulas“. Não vou mentir: é assustador enfrentar seus medos e perceber que há beleza no que surpreende. No que assusta. Ver Hugo despir-se e se entregar vorazmente à minha direção, ao seu vício e às lentes nuas e cruas do Hélio trouxe uma nova perspectiva para mim. E eu me assustei ao perceber quanta beleza vejo no sombrio. Assim são as fragilidades. Surpreendentes. Vulneráveis. Obscuras. Delicadas. Intensas. — chef Lucas Corazza